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Escrito por:
Ernesto Augustus
Em:
05/01/10
Sábado, dia 02/01/2010, um dia após a ressaca de ano novo, iniciamos a nossa jornada rumo a Rochedo, uma aventura, além de conhecer a região tínhamos uma missão, testar caiaques inflaveis pra nossa expedição maior no rio Meia Ponte no próximo mês. Partimos de Goiânia por volta de 09:30 da matina, cerca de 90 Km nos separavam de nosso destino, eu nunca tinho ido até região, primeira vez, ao chegar ao local logo empolguei com a visão, um rio cheio com águas revoltas e barrentas, resultado das últimas chuvas, famílias sorridentes e pescadores alegres com a captura de peixes.

Cataratas do Rochedo. fala se não intimida?

Eu e meu possante caiaque
Logo um leve frio na barriga tomou conta. pensei eu descendo de caiaque aquele rio intimidador. Eu e meu amigo Paulo Castilho fizemos algumas filmagens e fotos do local, conversa vai, conversa vem, decidimos que era hora de colocar os barcos na água... do lago é claro, primeiro iríamos testar a estabilidade dos "bichos", era pra ter certeza que tudo ia correr bem. Meu caiaque foi cheio de tralha, já na primeira viagem. Tinha Maquina fotografica, filmadora, GPS, filtro solar, garrafa de água, latinha de refrigerante, toalha, tudo pra garantir a hidratação, a proteção e as imagens. Iniciamos o passeio e o frio na barriga aumentou, o medo de que o caiaque virasse já na primeira marolinha também. Medo utltrapassado seguimos nosso rumo em direção a um pier que não podemos chegar pois o caminho até lá estava tomado por mato, e plantas aquáticas, experiencia abortada continuamos rumo a entrada do lago, passamos por formações de vegetação, marolas um pouco maiores, batismo de jogada d'água em mim, sede, pois não conseguia alcançar minha garrafa d'água e muito, muito esforço pra manter o caiaque reto devido ao vento.

Amigo Paulo Castilho. Manda um tchau pro povo!

Lago de rochedo. Pensa num lugar bom!
Vimos um monte de garrafas plasticas acumuladas no meio dos capins e repolhos d'água, visão triste do que o goianiense costuma fazer com seu rio. Prosseguimos, andamos cerca de 5.5 KM até uma parte onde foi impossível continuar. A correnteza estava muito forte, tivemos que voltar, o retorno foi mais rápido, pois estavamos a favor da corrente, devemos ter percorrido mais uns 3 Km na volta. Garanto que todo o esforço foi recompensado.

Se o lixo que flutua já é muito, imagina o que tem debaixo d'água?
Sinto vergonha por quem joga lixo na rua

Existem muitos jaburus na beira do lago. É uma ave imponente
O problema é que não ficou só nisso, queríamos mais, já estávamos seguros no caiaque e como diz meu amigo Paulo Castilho, aventura sem sofrimento é passeio. Vou contar uma coisa, como me aventurei esse dia. Não vou esquecer tão cedo, foi aventura a valer, o passeio ficou longe. Resolvemos então que tínhamos que descer o rio até a ponte da BR 153. Botamos os caiaques na água e seguimos o rumo, correnteza forte, rio cheio, nossa descida foi das mais tranquilas, pudemos apreciar a paisagem, contemplar a força e o tamanho do rio, rir das situações e nos torrar ao sol, apesar de ter passado filtro solar eu ainda consegui queimar algumas partes que ficaram desprotegidas ou o filtro perdeu o efeito após um tempo de exposição. Após curvas, voltas, corredeiras, ilhas, decisões a tomar, chegamos ao nosso destino, a ponte. O Paulo no auge de sua experiência parou o caiaque de maneira exemplar, e ficou tranquilo, eu cheguei com tudo achando que quanto mais rápido chegasse, maior a chance de não ser levado rio abaixo, ledo engano, na minha chegada, percebi que o rio não gosta de pressa, só vi a pilastra da ponte crescendo em minha direção e só tive tempo de dizer tchau, e deixar ser levado. Naquele momento achei que o caiaque fosse virar, mas não virou, então me preocupei só em achar um lugar para parar antes que eu ficasse longe demais do ponte de chegada. Procurei um ponto onde a água se tornasse parada ou ficasse em circulos para fazer meu desembarque, por sorte achei o ponto bem perto e atraquei, agarrei com força a pedra e pensei, é aqui mesmo. Sai da água e esvaziei o caiaque para o transporte.
Ponte na BR 153. No dia que chegamos nesse ponto o rio
estava passando por cima dessa terra encobrindo parte da pilastra
É aqui que começa a parte da aventura propriamente dita, eita sofrimento, 12 Kg nas costas mais remo, durante 8 KM, entre subidas e descidas até voltar a cidade não tem preço. Por sorte eu não me arrependi do passeio, valeu a pena o esforço, me senti quase num triatlo, com a modalidade levantamento de peso enquanto caminho. Ainda pegamos chuva no percurso. O Paulo estava com um caiaque mais pesado que o meu, mas felizmente ele é maior que eu e também mais empolgado nesse ponto, o que ajuda muito. Chegando ao destino pegamos o carro e voltamos pra Goiânia, loucos para chegar em nossas casas e tirar um belo de um merecido sono após 10 horas de esforços.
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Escrito por:
Paulo Castilho
Em:
04/01/10
Abaixo uma bem humorada postagem de Paulo Castilho sobre as embarcações usadas para desbravar o Meia Ponte.

Embalagem muito prática para transporte
Os preparativos para a descida do rio Meia-Ponte no carnaval de 2010 estão em andamento. Pessoas interessadas em se unir ao nosso grupo tem surgido a cada dia e provavelmente a equipe será composta de no mínimo quatro embarcações (um total de seis pessoas). O mais novo integrante de nossa equipe é o amigo Roberto Baccin (seja bem-vindo, amigo).

Visão frontal da embarcação
Novos caiaques foram adquiridos, dessa vez dois da empresa INTEX. São caiaques infláveis, que ainda não haviam sido testados por nós. No dia 02 de janeiro fomos (eu e Ernesto) até o lago da Usina do Rochedo para fazer o "test-drive" das novas embarcações.

K-1 e K-2. Proporção de tamanho.
O dia amanheceu com um belo sol. Ao longe, nuvens negras davam sinal que poderiam desaguar no final da tarde.

Depois de desembalado. Muito prático.
Minhas experiencias anteriores foram adquiridas com uma canoa canadense de fibra. Usar caiaques infláveis me deixou curioso. Chegamos ao lago por volta do meio-dia. Inflamos as embarcações e caimos n'água. As margens estão infestadas de vegetações aquáticas, aliás, muito mais do que das três vezes anteriores que visitei o local. Fizemos um percurso de subida de 5 quilômetros, dando uma volta extensa pela margem direita do lago. Fomos até a parte onde o rio começa a formar o lago. Após tentativa de continuarmos subindo, desistimos. A correnteza é forte e as embarcações muito leves.

Ernesto em momento de descontração.
Voltamos daquele ponto, fazendo um percurso menor pela margem esquerda (quase quatro quilômetros). Durante a descida decidimos que iríamos descer continuar o percurso abaixo da barragem, indo até a ponte da BR-153 (um percurso de 16Km).

Paulo Castilho. Ao fundo, Ernesto, aproveitando o conforto do K-1
No exato momento em que chegamos a margem, começou uma leve chuva que perdurou por toda a tarde, tornando impossível o registro através de fotos ou vídeo.

Excelente nível de água no reservatório da usina do Rochedo.
O trecho percorrido está completamente diferente que o da última vez que desci. Desta vez, com o rio cheio, todas as pedras (que são muitas) estão submersas. A correnteza é forte e o rio cheio de rebojos. Vários remansos se formam ao longo do percurso.

Linha amarela mostra o percurso de subida.
O vermelho foi o nosso retorno.
Conseguimos chegar até as pontes (hoje são três, duas novas e a antiga). O Ernesto teve dificuldades de atingir a margem sob uma das pontes e rodou por mais alguns metros, só conseguindo sair do rio abaixo das pontes.

Trecho do rio abaixo da usina.
Como não tínhamos equipe de apoio em terra, tivemos que carregar os equipamentos (caiaque e remos) por um percurso de oito quilômetros a pé. Fomos pegos por uma forte chuva, que acabou ajudando no sofrimento da volta. A distância não foi problema e sim o peso dos caiaques (sem falar no desconforto de carregá-los sobre a cabeça).

Notem a proximidade da rodovia com o leito do rio;
AVALIAÇÕES DAS EMBARCAÇÕES
. Utilizamos dois tipos de caiaques da INTEX, um monoplace (K-1) e um biplace (K-2);

Trecho do rio conhecido como Volta Grande.
. O K-1 foi utilizado pelo Ernesto, que pesa menos de 80 quilos. O K-2 foi utilizado por mim, que peso 90 quilos;

No período de seca este é um dos trechos mais difíceis.
. A idéia de se utilizar um biplace foi justamente pelo fato do excesso de peso (pessoa mais equipamento - que excede os 100 Kg);

Neste trecho é possivel ouvir e ver os caminhões que passam na rodovia.
. As embarcações são muito leves, o que torna o atrito com a agua bem menor, causando uma certa falta de manobrabilidade das mesmas. Em áreas de corrente fica difícil manter o rumos, principalmente em remansos;

Ponto de chegada, BR-153.
. O K-1 saiu-se melhor que o K-2. A falta de peso na dianteira do K-2 foi fatal para o seu desempenho ruim, ou seja, ou se coloca outra pessoa na frente ou se usa o espaço que sobra para carregar equipamentos (fazendo um contra-peso).

Visão geral da região. A rodovia (à esquerda) e o leito do rio (à direita).
. Em termos de conforto não existe embarcações melhores. O K-2 possibilita até mesmo que se durma dentro do mesmo, bastando para isso que se utilize uma lona sobre ele. Durante as longas remadas as costas ficam apoiadas em um banco inflável de maneira completamente confortável, ao contrário da canoa de fibra.

Trecho em amarelo feito de caiaque, em vermelho foi feito a pé.
Apesar dos pontos negativos, as embarcações foram aprovadas.

Trecho abaixo da represa.
Para quem quiser adquirir os caiaques utilizados nesta aventura devem entrar no site da Submarino através do banner existente no blog www.hqpoint.blogspot.com, que desta forma estará ajudando a nossa equipe. O preço é bem acessível. Confira!

Na placa: "Talvez o lixo que você vê aqui, foi jogado por você em Goiânia.
Pense nisso."
Pessoas interessadas em se unir ao nosso grupo são muito bem-vindas. A descida de Goiânia até Aloandia será no feriado de carnaval.

PARA ONDE VAI O LIXO DE GOIÂNIA?

O que é aquilo? Toddy? Coca-Cola?
Ao chegar às margens do lago da usina Rochedo, uma placa fixada em uma árvore chamou minha atenção: "Talvez o lixo que você vê aqui, foi jogado por você em Goiânia. Pense nisso." (veja foto no artigo acima)

Aquilo parecia um aviso de preparação para o que iríamos ver na parte superior da barragem. O que vimos é simplesmente assustador e nos faz acreditar MAIS ainda na necessidade de se criar no rio, nos municipios acima da usina, barreiras de contensão de lixo flutuante, uma ação fácil e barata de ser executada.

Água mineral é Nativa (?!) do lago?
Outra alternativa seria as empresas que produzem tais lixos (de refrigerantes, produtos de limpeza e alimentos) fazerem promoções para recolherem tais embalagens, por exemplo, empresas de refrigerantes ao invés de pedirem as tampinhas em suas promoções, pediriam o vasilhame completo. O mesmo pode ser feito por outras indústrias. Você compraria um produto que te premiaria (um produto semelhante em troca das embalagens vazias) caso você devolvesse ao comércio "x" embalagens? Empresas de reciclagem podem e devem ser envolvidas nessas campanhas.

Êpa! Isso não é lixo. Sou eu.
Tá certo que a grande culpa de tais lixos estarem por aí é dos consumidores, que não tem a mínima educação (nem arrisco falar "cultura") e descartam o lixo pelas ruas. Cabe a você evitar que essa sujeira continue. Faça sua parte.
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Escrito por:
Ernesto Augustus
Em:
07/03/10

Como o nasceu o Portal MeiaPonte.Org e as histórias das novas expedições pelo rio Meia Ponte e afluentes
Tudo começou há menos de 1 ano, em Julho de 2009. Eu um defensor do rio Meia Ponte havia escutado histórias de pessoas que haviam descido o rio. Uma das histórias eu li no jornal Diário da Manhã e desde então fiquei pensativo: "eu tinha que encontrar essa pessoa". Foi então que o primeiro lugar que comecei a procurar foi na internet. Felizmente minha busca não foi muito longe. Deparei-me com a história da descida de Paulo Castilho pelo rio Meia Ponte no blog goiania-goias.blogspot.com. Li no blog as aventuras e desventuras do Castilho pelo rio. Não perdi tempo, foi então que enviei uma mensagem no dia 18 de Julho de 2009, e dois dias depois para minha surpresa o Castilho respondeu. Fiquei muito feliz, claro. Afinal de contas eu consegui encontrar um amigo que poderia compartilhar comigo suas experiências sobre rio e de quebra poderiamos chegar ao Paranaíba, foz do rio Meia Ponte.
Abaixo o e-mail que enviei para o Paulo:
Boa noite Paulo,
Conheci seu blog hoje, e foi uma pena não ter conhecido há mais tempo. Percebi que você fez por mais de uma oportunidade a descida do Rio Meia Ponte. Já faz tempo que tenho essa vontade mas nunca tinha encontrado ninguém pra esse tipo de "aventura", que no meu caso seria também em caráter de conhecimento, estudo e por que não aventura mesmo. Tenho um site que fala sobre ecologia, o www.guiaecologico.com.br. Mas já tem um tempo que não mexo nele, na verdade não sobra muito tempo. Tenho uma vontade muito grande de deixa-lo recheado com informações, inclusive tava pensando em tirar fotos dos córregos de goiânia com os pontos e coloca-los em algo como um google maps pro pessoal que tiver curiosidade, ver como é determinada parte do córrego em alguns pontos do mapa. Mas ainda é um projeto, quero muito que as pessoas vejam que nossa cidade é um oasis, com uma micro bacia hidrografica imensa, mas que esta totalmente degradada. Precisava de uns parceiros nessa empreitada. O canal tá aberto, quem sabe podemos conversar depois. Té logo, abraço! Já favoritei o blog aqui.
Ernesto Augustus
E a resposta dele:
Caramba, Ernesto. Obrigado por ter entrado em contato.
Pode ter certeza de que a gente precisa sentar pra conversar.
Ainda não cheguei ao Rio Paranaiba pelo Meia Ponte, mas ainda vou realizar essa aventura.
Ando meio focado em outras viagens e o Meia Ponte acabou ficando em segundo plano.
Acabei de chegar de viagem do Rio dos Bois. Vou fazer uma descida por ele.
Sua idéia sobre os córregos é sensacional. Tenho um trabalho hiperdetalhado sobre um córrego de Goiãnia (se não me engano é o Cascavel). Vou ver se encontro em meus arquivos. Fala tudo... nascente, pontos na cidade e foz.
Você sabe porque o ribeirão João Leite tem esse nome? Depois eu te conto.
Seria legal vc entrar em contato pra gente poder conversar. Vamos marcar uma descida pelo rio em quqlauqer final de semana desses. Tô com um caiaque e uma canoa canadense. Só preciso de transporte para levá-las até o rio e buscar mais embaixo.
Desde então já participamos de várias expedições, novas pessoas entraram na empreitada e as aventuras poderão ser acompanhadas aqui nessa sessão do site. Já temos bastante material e texto para ser colocado, a cada nova aventura, uma nova postagem. Quem tiver interesse de participar também basta entrar em contato conosco. Fazemos esse tipo de trabalho porque gostamos e porque o rio pede por socorro. Queremos sensibilizar as pessoas de que o rio Meia Ponte é muito mais do que poluição, o rio é vida!

Da esquerda para a direita: Renato Rodrigues, Paulo Castilho e
eu, Ernesto Augustus
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Escrito por:
Paulo Castilho
Em:
17/04/06
SEGUNDA PARTE

Hugo Leonardo Albuquerque, o parceiro que enfrentou a aventura a partir
de Goiânia
Após descansar na segunda-feira, prosseguimos viagem na terça, 18 de abril. Ano passado nosso ponto de partida foi a chácara do amigo Gioveroni. Neste ano decidimos sair um pouco abaixo, na ponte de concreto que liga o Vale das Pombas (Goiânia) ao município de Bela Vista.
O momento da nossa partida. Mais uma vez, o nosso amigo Janderson foi peça fundamental em nossa aventura.
Como a quantidade de chuva desse ano foi maior que a do ano passado, a quantidade de água está maior e a margem está mais baixa, o que facilitou nossa saída deste ponto. Saímos do local às 11:30 horas.

Assim que saímos, poucas curvas abaixo, deparamos com uma
margem (direita) com sinais de extração de areia.
Por ser a primeira vez que o Hugo pega em um remo, pensei que a viagem deste ano duraria mais que os três dias que gastamos no ano passado. Em um balanço geral, cheguei à conclusão de que gastamos apenas três horas a mais que a viagem anterior.
Notei que aumentaram os pontos de retirada de areia. Ainda dentro do município de Goiânia, deparamos com dois homens que faziam a retirada manualmente. Nós os cumprimentamos e sem que fizéssemos qualquer pergunta, eles alegaram que estavam fazendo aquilo por não terem outra fonte de renda. O trabalho destes homens, em termos de danos ao meio ambiente, é nulo quando comparados aos trabalhos das dragas.

Segundo ponto de retirada de areia, no município de Aparecida de Goiânia.
Margem habitada. Sempre há problemas de desmatamento nesses locais. Além de desmatar totalmente a margem, os proprietários ainda tem a coragem de passar suas cercas rente às margens. Mesmo com o desbarrancamento e assoreamento visível, não há a menor preocupação de um reflorestamento no espaço exigido por lei. Alegar falta de informação já não é uma boa desculpa.

Nossa primeira parada para um lanche. Chamou-me a atenção este
caudaloso riacho que desagua no rio pela margem direita.
Há sinais de que ali seja um ponto de pesca.

Nosso primeiro acampamento. Paramos por volta das 17:30 Hrs.
O plano era acampar no mesmo local utilizado por nós no ano passado, ou seja, na ponte que liga os municípios de Hidrolândia ao de Bela Vista de Goiás.
Estava ficando tarde e decidimos que seria melhor parar nesse banco de areia à margem esquerda do rio. No local havia muitas pegadas e fezes de capivaras. Muito aconchegante e seguro este local. Atrás de nós um alto barranco dificultava a entrada de qualquer pessoa. Não encontramos madeira para a fogueira.

Como era a primeira experiência de viagem por rios do Hugo, ele estava muito amedrontado com a possibilidade de encontramos algum animal “selvagem”. Temia que fôssemos atacados por onças ou até mesmo por alguma sucuri. Resolvi tirar proveito e fazer algumas brincadeiras. Em nossa primeira parada para pouso, deparamos com um monte de fezes de capivaras, juntamente com algumas pegadas. Já que ele não conhecia nada daquilo, eu disse que era fezes e pegadas de onça... e das GRANDES! Ele se assustou logo de cara e não queria nem mesmo descer da canoa. Amarrar a canoa em uma árvore próxima ao barranco foi motivo de discussão, pegar lenha para uma fogueira... sem chance. O Hugo não saia de perto de mim e disse que iria montar a sua barraca colada na minha (veja foto acima).
De nada adiantou eu querer desfazer a brincadeira, ele não acreditava que a chance de uma onça aparecer por ali era quase nula e muito menos de que o homem não faz parte da cadeia alimentar desse felino (a não ser em casos extremos de fome, proteção de filhotes ou acuação). Se as presas silvestres se tornam muito raras, as novilhas, as ovelhas e as aves domésticas podem se tornar atraentes. Na maioria das vezes, o predador só está de passagem, em busca de comida. Basta fazer barulho, bater palmas, gritar e abrir passagem que ela vai embora.
Devido ao avanço da agropecuária, ao crescimento urbano ou grandes obras, como rodovias e hidrelétricas, a supressão de florestas nativas deixa as onças demasiadamente vulneráveis. Como predadores, animais de topo de cadeia alimentar, elas precisam de grandes áreas para caçar, viver e procriar. Um indivíduo macho adulto chega a ocupar entre 22 e 150 quilômetros quadrados dependendo da região e da disponibilidade de alimentos. Quanto menos presas disponíveis, mais as onças têm de caminhar. Ao sair em busca de alimento, elas topam com as fronteiras estabelecidas pelo homem. E, inadvertidamente, ‘avançam os sinais vermelhos’.
De acordo com pesquisas feitas pelo Cenap (Centro Nacional de Pesquisa), entre 1993 e 2003, houve 155 ocorrências de onças junto a fazendas e áreas urbanas, só na região Sudeste. Outros 115 casos foram registrados no Sul, no mesmo período. No Centro-Oeste foram 28, no Nordeste 22 e no Pantanal, 20. Longe de refletir a realidade devido à subnotificação, os números servem apenas como parâmetro da disputa pelo espaço.

Carcaça de uma vaca boiando rio abaixo, logo acima da ponte que
liga a BR-153 ao município de Piracanjuba. O mal cheiro foi notado
por nós alguns metros antes de chegar até ela.
Por volta das 16:30hr começamos a notar que o céu atrás de nós estava escurecendo. Grandes nuvens de chuva se agrupavam e fortes trovões começaram a ser ouvidos. O ideal seria procurar um lugar seguro para acampar, mas ainda era cedo e isto poderia atrasar completamente nossa viagem. Resolvemos arriscar e prosseguir viagem.
Chegamos à ponte de Piracanjuba justamente na hora em que a chuva nos alcançou. Pensei em acampar por ali, mas mudei de idéia quando pensei na segurança do local.
A experiência do ano passado de que dali para baixo os pontos para acampamento são raros, batiam sempre na minha cabeça. Mesmo assim, resolvi prosseguir viagem e diminuir a diferença de horas.

Aqui estamos exatamente debaixo da ponte nova de Piracanjuba, olhando
para a antiga ponte que ruiu. Nos escondemos da chuva e aproveitei
para dar uma breve cochilada dentro da canoa.
Logo abaixo desta ponte, passamos pela ilhota onde existe uma pequena casinha sobre palafitas.
A vegetação que margeia o rio a partir deste ponto muda completamente. Ciente de que teríamos dificuldades para acampar, resolvi entrar em um pequeno riacho que desembocava na margem direita do rio. Após percorrer uns dez metros por ele, achamos um ponto ideal para acampar. A margem alta e coberta por uma baixa vegetação foi o ideal.
Nossa segunda noite. Após uma tarde sob constante ameaça de chuva, acampamos em um braço de um riacho à margem direita do rio Meia Ponte. O local era seguro, pois estava a mais ou menos um metro da linha d’água.

Aqui neste acampamento, tive novamente a demonstração de outra fobia do Hugo: o medo de ser atacado por uma sucuri. Como tivemos que entrar em um pequeno tributário do rio, de pouca profundidade e cheio de raízes nas margens, ele ficou bastante assustado. Eu disse a ele que a sucuri “arfava” (fazendo um som parecido com um ronco) antes de atacar suas presas. Durante a noite, devido aos meus roncos, o Hugo ficou algumas horas sem dormir sem saber se quem roncava era eu ou a cobra!!!
A sucuri é um réptil ofídio da família dos boídeos. Para identificá-la, basta observar certas características: cor pardo-azeitonada, com uma dupla série de grandes manchas pretas e cabeça revestida de numerosas escamas pequenas. Elas habitam praticamente quase todo o território brasileiro, vivendo sempre à beira de rios e riachos. A Sucuri é a rainha da selva amazônica. No passado, a existência desta extraordinária serpente perdia-se nas brumas da lenda. Os exploradores que a haviam encontrado falavam de um aterrorizante monstro (o coronel Fawcett encontrou uma de 15 metros e Henry Walter Bates ouviu falar de espécies do mesmo tamanho); os índios, por seu turno, acreditam numa serpente mitológica com dezenas de metros de comprimento, chamada Mãe D’Água.
Passando da lenda à realidade, a sucuri continua sendo a maior serpente conhecida: ainda que o espécime conservado num museu de Londres tenha menos de nove metros, há notícias de espécies que, garantidamente atingem os doze metros (enquanto a rival direta da sucuri, a píton malaia ou de Bornéu, não supera os dez).
É possível que no passado tenham existido os espécimes gigantescos de que falam Fawcett e Bates nos seus livros de exploração? Talvez.
Infelizmente, a rainha da floresta corre o risco de extinção, submetida como é a um impiedoso massacre por parte de caçadores índios e colonos brancos.
A sucuri tem um processo digestivo muito difícil e trabalhoso, durante o qual se torna presa fácil dos caçadores. Sua única defesa, nesses casos, se mostra contraproducente: emana um desagradável e intenso odor que ajuda os caçadores a localizar seu esconderijo.
Por outro lado, a sucuri não conhece rival entre os outros animais na captura de suas presas. É quase sempre coroada de sucesso em suas lutas com o jacaré.
Como ele sempre deixava a canoa ir em direção às galhadas nas margens do rio, eu disse a ele que naqueles locais é que as cobras costumavam ficar, enroladas nas árvores. Foi o suficiente para que a canoa sempre navegasse no meio do leito!!! De vez em quando ouvíamos o som de um pica-pau martelando alguma árvore com seu bico. Ao ser perguntado sobre a origem daquele som, eu disse ao Hugo que se tratava de cobras alertando sobre sua presença (a canoa quase voava de tantas remadas!).
A principal ferramenta do pica-pau para sobreviver é o bico extremamente resistente, que é usado para picar a madeira do tronco das árvores à procura de insetos. Dotados de músculos fortes no pescoço, os pica-paus tem até uma proteção no cérebro, para suportarem a trepidação. Sem isso não agüentariam bater com o bico na madeira mais de 100 vezes por minuto, sem ficarem zonzos. Os ossos entre o bico e o crânio não são contínuos e sim ligados por um tecido esponjoso capaz de absorver os impactos e, assim, evitar danos cerebrais.
O maior risco que se corre ao fazer uma aventura como a nossa, é acabar esbarrando em uma cobra. Contei ao Hugo que na sede da Geo Ambiente existe a fotografia de uma cobra, que morreu ao tentar engolir uma presa de grande porte. Começamos a falar do tema.
Quando as pessoas se servem de refeições além de sua capacidade de comer, ou quando engasgam com um bocado maior, dizemos que têm “olhos maiores que a barriga”. Isto também pode acontecer com os animais, incluindo as cobras.
As cobras não tem dentes adequados parra mastigar ou cortar sua refeição em bocados. Portanto, tem que engolir inteira sua presa. Apesar da capacidade de engolir bocados grandes – pois sua pele é elástica e as costelas não estão unidas entre si – há um limite de volume. Se o limite é ultrapassado, está criada a situação de “olhos maiores que a barriga”.
Mortes de cobras por sufocação foram relatadas por biólogos em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil (a foto da Geo Ambiente é um bom exemplo).
Ao se deparar com uma cobra no meio do mato, é bom lembrar que a grande maioria delas é inofensiva para nós, e que na maioria das vezes nós é que somos um risco para elas. Todas são mortas indiscriminadamente, sejam inofensivas ou perigosas (caso das poucas espécies peçonhentas da nossa fauna). O risco que atribuímos a estes animais está baseado na nossa ignorância sobre seus hábitos. As cobras tem função importante na natureza, como predadores ou presas de outros animais.
A atual devastação ambiental é a maior ameaça para as cobras. Então, caso você se depare com uma, pense duas vezes antes de matá-la.

Outra draga de areia. Passamos por ela na manhã do terceiro dia.
Outra vez tivemos dificuldades em passar pelos cabos que atravessam o rio.
Essa estava em pleno funcionamento, um homem a manobrava
enquanto outros quatro trabalhavam na margem.
As torres de transmissão de energia são indícios de que o lago está próximo.
A última coisa que eu esperava encontrar a partir deste ponto era uma draga de areia... mas ali estava ela, com seus cabos de um lado ao outro, em plena região do lago.

Chegamos ao ancoradouro do Renor exatamente às 16:15hr.
Ao chegarmos no lago, após exaustivas horas de remo, fomos fazer reconhecimento do local por onde passaríamos o equipamento.
Na margem oposta de onde acampamos, existe uma “rochinha”, bem ao lado da barragem do Rochedo, por onde as pessoas descem embarcações. Foi por ali que decidimos que passaríamos a nossa canoa.
Constatamos que seria possível transportar nosso equipamento através da rochinha. Todo o material teria que ser carregado por cerca de 500 metros. Voltamos para nosso acampamento e, após uma farta refeição (uma das melhores depois de todos esses dias), fomos dormir às 21:10hr.

Na manhã do quarto dia, após sair de minha barraca, enquanto tomava
leite com chocolate, sentado no ancoradouro, essa foi a visão que tive do
amanhecer. Eram 6:25hr do dia 22 de abril.Nosso acampamento
no ancoradouro do Renor, momentos antes de nossa partida.
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Escrito por:
Paulo Castilho
Em:
13/04/06
Primeira Parte

Ao fundo, a margem por onde entramos no rio.
No ano de 2004, eu e o Ronilson P. Marques, fizemos o percurso de Goiânia ao Lago do Rochedo pelo leito do rio Meia Ponte, em um total de 170 km - por terra a distancia nao passa de 99km. Começamos a aventura no dia 21 de Abril e concluímos no dia 23, tres dias arduos de descida.
Esse ano eu quis fazer um percurso mais longo. Decidi que o ideal seria sair de Goianira, distante 55km desde minha residência, passando por Goiânia e seguindo além do lago, indo até o município de Aloândia.
A equipe inicial foi composta por mim, Rogério, que iria me acompanhar no remo e Donato, que por sua vez estaria dando início a um trabalho de filmagem das condições do rio.
Além do material filmado, nós também fizemos o registro através de fotografias.
Saímos de Goiânia às 8 horas da manha. Na cidade de Goianira fomos auxiliados pelo amigo Valdivino, que nos levou até o rio. O transporte de Goiânia a Goianira foi feito na Kombi de um amigo.
A margem que usamos como ponto de partida está totalmente desmatado. Trata-se de uma curva, que serve como vazante na época das cheias. O local poderia muito bem ser reflorestado, mas o proprietário local o usa como pasto para o gado.
Em se tratando de reflorestamento da mata ciliar, há espécies pouco conhecidas da população, como a “dedaleira” (Lafoensia pacari), uma árvore de pequeno a médio porte, de flores brancas amareladas, que de novembro a janeiro atrai morcegos, mariposas e abelhas, seus polinizadores. Ela está sendo usada no reflorestamento da Mata Atlântica. Tradicionalmente, sua madeira era usada na fabricação de flechas pelos índios guaranis.

Janderson e sua Kombi, responsável pelo transporte do equipamento
Ao se fazer o trabalho de reflorestamento, acho que seria interessante pensar na fauna da região. Pensando assim, seria interessante pensar em árvores que atraem e alimentam os pássaros. Nesse caso, teríamos que pensar em plantas especiais, como a árvore fruto-de-sabiá (Achnistus arboreus). Embora tenha apenas o nome de um pássaro em particular, pode alimentar outras 50 espécies como saíras, sanhaços, pombas, tico-tico-rei.
A maioria das pessoas sempre pensam, “Mas não leva muito tempo até crescer?”. Temos que parar de pensar em soluções imediatistas. Ninguém fica nesse mundo para semente, mas nossas idéias sim, podem ser sementes para uso de todos. Plantar árvores é semear a vida. Vê-las crescer, florescer, frutificar é uma forma de amor incondicional.

Rogerio e nossa equipe de apoio.
A perda da mata ciliar representa uma das maiores ameaças aos sistemas aquáticos. A vegetação das margens contribui para o delicado equilíbrio das águas. Como os cílios protegem nossos olhos, essas matas protegem as margens das nascentes e rios, contendo suas barrancas e constituindo um verdadeiro filtro de retenção dos sedimentos, resultantes da erosão. Com a mata na integra, a copa das árvores não permite que a chuva caia diretamente no solo. A água escorre vagarosamente pelos troncos, infiltra no solo e alimenta nascentes e o lençol freático.
Sem a mata ciliar, a água arrasta sedimentos para os rios, que ficam turvos. Os próprios fazendeiros pagam o preço do desmatamento. Com o solo desprotegido, as chuvas lavam o solo dos pastos, que ficam pobres em nutrientes e o gado também sofre as consequências da retirada radical das matas.

Um dos momentos difíceis da viagem. Tivemos que passar a canoa
vazia amarrada por cordas por sobre várias pedras.
A estação de coleta e tratamento de água de Goiânia tambem foi um dificil obstáculo que tivemos que transpor. A canoa teve que ser carregada por fora do leito. O guarda, que faz vigilância no local veio até nós, explicamos o que estávamos fazendo e em seguida prosseguimos viagem.

Ao fundo, Estaçao de Elevaçao de Agua de Goiania
Depois de percorrer 70 Km a partir de sua nascente, este rio margeia a região norte da capital e segue em direção às águas do sul. Só em Goiânia, ele já chegou a receber diariamente mais de 170 milhões de litros de esgoto.
Abaixo da estação de coleta de água, apesar de termos passado por vários pescadores e até mesmo banhistas (vários deles), começam as irregularidades. Esgotos são jogados diretamente no rio e águas são coletadas irregularmente (?) para irrigação.
Durante a descida, encontramos famílias inteiras tomando banho e até mesmo assando carne na beira do rio. Por não querer invadir a privacidade dos mesmos, não fizemos fotos, 0 mesmo aconteceu com os pescadores.

Esgoto domestico sendo despejado in natura no leito do rio

A idéia inicial era remar de Goiânira até Goiânia até à chácara do Gioveroni Limongi, próximo da GO-020, de onde partiríamos em direção a Aloândia na terça-feira. Os obstáculos encontrados pelo caminho acabaram por atrasar nosso percurso. Tivemos que improvisar uma saída antes do previsto. Acabamos saindo na ponte que liga o Carrefour Norte a Arisco (Perimetral Norte).
Como não havíamos previsto esse incidente, tivemos que improvisar socorro para transportar o barco. Após várias tentativas, acabou sobrando para o parceiro do ano passado, Ronilson, que veio em nosso auxílio.

Donato, Rogerio e eu. Notem como ja estava escuro quando chegamos.
Pouco acima de onde nós aportamos, existe na margem direita uma verdadeira “cascata” de esgoto. A falta de iluminação impediu que fotografássemos a mesma.
Mesmo com toda a sujeira do local e do mal cheiro, no local em que retiramos a canoa do rio havia umas seis pessoas pescando.
Saímos dali por volta das 19:30 hrs.

Ronilson - responsavel pelo nosso inesperado resgate.
O plano agora era descansar para seguir viagem na terça-feira (19 de abril).
O grande problema do rio no perímetro urbano de Goiânia, além do esgoto e lixo plástico, são os entulhos. Eles formam verdadeiras “ilhas” nas margens e no meio do rio. Até mesmo nessa época em que sua caixa está cheia, nosso barco raspou o fundo várias vezes nessas ilhas.
Continua...
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